Microbiologia | Bactérias, Fungos e Vírus

Microbiologia | Bactérias, Fungos e Vírus

Microbiologia | Bactérias, Fungos e VírusPoluição Biológica - A intervenção do homem nos ecossistemas naturais vem também causando o descontrole nos equilíbrios populacionais. Inúmeros exemplos, como o uso de defensivos agrícolas (que exterminam predadores naturais e selecionam espécies resistentes), a introdução de espécies em ecossistemas isolados (a Austrália é um bom exemplo). As atividades humanas estão reduzindo enormemente a diversidade de espécies de organismos vivos encontrados em nosso planeta (chamada de biodiversidade). Milhares de espécies de animais, plantas e outros seres vivos já foram extintos pela ação direta ou indireta do ser humano. Mais importante do que a ação predatória direta do homem, é a destruição dos ecossistemas naturais, substituídos por pastagens e lavouras, que leva inúmeras espécies de macro e microrganismos à extinção. Isso representa não só uma perda de valores espirituais, estéticos e turísticos, mas também ao desaparecimento de fontes de novos remédios, substancias químicas e alimentos produzidos por esses organismos, os quais são destruídos antes mesmo de serem conhecidos e utilizados pelo ser humano. O estabelecimento de reservas, áreas de preservação e uso mais racional dos ecossistemas é fundamental para a preservação da biodiversidade.

Zooplâncton

Zooplâncton

conjunto de animais, geralmente microscópicos, que flutuam nos ecossistemas aquáticos e que, embora tenham movimentos próprios, não são capazes de vencer as correntezas.

Síndrome da China

Síndrome da China

Nome que designa um acidente nuclear imaginário, com o derretimento incontrolado de um reator atômico. Segundo a ficção, a quantidade de calor era tão grande que causaria o derretimento do solo desde os Estados Unidos até a China.

A vida humana está intimamente relacionada com os microrganismos, abundantes no solo, no mar e no ar. Invisíveis a olho nu, esses seres oferecem fartas evidências de sua existência -- muitas vezes de forma desfavorável, quando deterioram objetos valorizados pelo homem e provocam doenças, ou benéfica, quando fermentam álcool para a fabricação de vinho e cerveja, levedam o pão e produzem os derivados do leite. De incalculável valor na natureza, os microrganismos também decompõem restos vegetais e animais para transformá-los em gases e elementos mine- rais recicláveis por outros organismos.

Microbiologia é a ciência que estuda os microrganismos, seres vivos de tamanho microscópico que pertencem a classes e reinos diversos e entre os quais estão os protozoários, as algas microscópicas, os vírus, as bactérias e os fungos. Pela dificuldade em classificá-los como plantas ou animais, os microrganismos são às vezes agrupados separadamente como protistas, seres de vida primitiva. A microbiologia pode ser dividida em disciplinas específicas: a bacteriologia, que se ocupa do estudo das bactérias; a virologia, que pesquisa os vírus e rickéttsias; e a protozoologia, que estuda os protozoários, as algas e os fungos. De outro ponto de vista, pode ser classificada em teórica, ou pura, e prática, ou aplicada. A microbiologia aplicada divide-se ainda, de acordo com as especialidades, em médica, industrial, agrícola e alimentar.

Interesse biológico. Muitas bactérias e vírus produzem graves doenças nos animais, em especial nos seres humanos, como cólera, peste, difteria, tifo, sífilis, tuberculose etc. Os vírus causam poliomielite, herpes e hidrofobia (raiva), entre outras doenças. Mas há bactérias que interferem de forma positiva em sistemas essenciais à sobrevivência humana. Elas estão envolvidas, por exemplo, em processos industriais como a fermentação alcoólica e a do leite, além da produção de antibióticos e diversos compostos químicos. Intervêm ainda nos ciclos naturais do carbono e do nitrogênio.

Um dos estudos mais recentes sobre os microrganismos é a investigação de sua possível ocorrência no espaço sideral e em outros planetas além da Terra. Ramo da exobiologia, a microbiologia espacial pesquisa os microrganismos como fornecedores de alimento e oxigênio no ambiente fechado das naves espaciais.

Abordagem histórica. A partir do século XIII, atribuiu-se a organismos invisíveis a responsabilidade pelo surgimento de algumas doenças. Em 1546, Girolamo Fracastoro defendeu, em seu livro De contagione et contagiosis morbis (Sobre os contágios, as doenças contagiosas) a ideia segundo a qual o contágio se deve a agentes vivos. A microbiologia como ciência só começou, porém, com a invenção e o aprimoramento do microscópio. Embora não tenha sido o primeiro a observar o mundo microscópico, o holandês Antonie van Leeuwenhoek, comerciante e hábil construtor de lentes, foi, no final do século XVII, o primeiro a registrar descrições adequadas de suas observações, excelentes pela qualidade excepcional de suas lentes. Leeuwenhoek comunicou suas descobertas sobre os "animálculos" numa série de cartas enviadas à Royal Society de Londres, em meados de 1670.

No século XVII, ainda exercia grande influência sobre os cientistas o conceito de geração espontânea de vida -- ideia defendida inicialmente pelos gregos, segundo a qual os seres vivos podem surgir da matéria inanimada. No final do século, uma série de observações e experiências desferiu um golpe mortal sobre a teoria da geração espontânea. Coube a Louis Pasteur demonstrar que os microrganismos só podem se originar de outros seres vivos.

Cientista de importância fundamental para a história da microbiologia, Pasteur constatou também que os processos fermentativos resultam da atividade de microrganismos e estudou o problema da deterioração do vinho, do vinagre e da cerveja, além de doenças que afetavam o bicho-da- seda e ameaçavam arruinar a indústria têxtil francesa. Pasteur descobriu que o vinho se transforma em vinagre por ação da bactéria Acetobacter aceti e utilizou o calor para destruir os agentes patogênicos contidos em alimentos líquidos, que mantinham assim suas propriedades nutritivas praticamente inalteradas. Esse método ficou conhecido como pasteurização e veio a ter enorme importância na indústria alimentícia.

Graças aos trabalhos de Pasteur, desenvolveu-se a cirurgia anti- séptica, cuja aplicação, em 1867, se deve ao cirurgião britânico Joseph Lister, que empregou como desinfetante o ácido fênico. Esse procedimento reduziu de forma significativa os casos de mortalidade por infecção pós- operatória.

Outra grande figura da microbiologia no século XIX foi o alemão Robert Koch, que em 1876 isolou a bactéria causadora do carbúnculo. As bases da microbiologia foram solidamente fundadas entre 1880 e 1990. Discípulos de Pasteur e Koch, entre outros, descobriram inúmeras bactérias capazes de causar doenças específicas e elaboraram um conjunto de técnicas e procedimentos laboratoriais para revelar a ubiquidade, diversidade e o poder dos micróbios.

Em 1882, Koch descobriu o bacilo da tuberculose e, um ano depois, o microrganismo responsável pela cólera asiática. Também em 1883 foi identificada a bactéria causadora da difteria. Nesse mesmo período, Pasteur e seus assistentes comprovaram que animais vacinados com um bacilo de antraz especialmente cultivado se mostravam imunes à doença. Essa descoberta deu início ao estudo da imunidade e dos princípios que funda- mentaram a prevenção e o tratamento de doenças por meio de vacinas e soros.

Pasteur, em 1885, produziu uma vacina contra a raiva, e um assistente seu, Charles Chamberland, descobriu que, enquanto as bactérias não eram capazes de atravessar filtros de porcelana, outros organismos o eram. Em 1892, o pesquisador russo Dimitri Ivanovski constatou que o agente causa- dor do mosaico do tabaco era do tipo filtrável. Dez anos depois, outro organismo filtrável foi identificado como causador da febre aftosa do gado. Aos poucos foram sendo aprimoradas técnicas muito precisas para investigar esses organismos, que passaram a ser conhecidos como vírus. As rickéttsias, que se assemelham às bactérias muito pequenas, foram descri- tas pela primeira vez pelo patologista americano Howard Taylor Ricketts, em 1908, quando ele estudava a febre das montanhas Rochosas, doença provocada por esses microrganismos.

A partir da década de 1940, a microbiologia experimentou uma fase extremamente produtiva, durante a qual foram identificados vários microrganismos causadores de doenças e desenvolveram-se métodos para controlá-los.

A virulência dos microrganismos se verifica por meio da inoculação em animais, nos quais se analisam as mudanças de temperatura e as lesões provocadas. Quando um microrganismo é virulento para o homem, pode-se provocar uma lesão experimental para descobrir o agente infectante e depois voltar a isolá-lo em meios seletivos. Os animais, protegidos com soros específicos, também podem ser inoculados com os produtos tóxicos de determinadas bactérias.

A observação da forma, cor e aspecto das colônias pode ser feita a olho nu ou ao microscópio. O estudo das bactérias ao microscópio óptico é facilitado pela técnica de coloração da amostra com violeta de genciana, ou método de Gram, assim chamado em homenagem ao médico que descobriu o processo, Hans Christian Gram, em 1884. Os organismos que tomam a coloração são chamados de Gram-positivos, e os outros, de Gram- negativos.

Todos os órgãos e sistemas fisiológicos podem sofrer doenças infecciosas, decorrentes da implantação no organismo de seres vivos patogênicos de dimensões microscópicas. Distingue-se, porém, uma série de quadros clínicos que integram o núcleo básico da pesquisa médica microbiológica e se caracterizam, em geral, pelo elevado risco de contágio e, em muitos casos, pela natureza epidêmica.

De acordo com o tamanho, as características bioquímicas ou a maneira como interagem com o homem, os agentes infecciosos se classificam em bactérias, vírus, rickéttsias, micoplasmas e ureaplasmas, fungos, parasitos e clamídias (parasitos intracelulares que provocam conjuntivite em recém- nascidos, pneumonia e infecções genitais, contêm ADN e ARN e podem ser combatidas com antibióticos).

As barreiras mais importantes à invasão do corpo humano por microrganismos são a pele e as mucosas, tecidos que revestem internamente o nariz, a boca e o trato respiratório superior. Quando esses tecidos se rompem ou são afetados por doenças, pode ocorrer invasão por microrganismos, capazes de produzir doenças infecciosas, como furúnculos, ou invadir a corrente sanguínea e se disseminarem por todo o corpo, produzindo infecção generalizada (septicemia) ou localizada em outra parte do corpo,

O citoplasma, por sua vez, é circundado pela membrana plasmática, envoltório composto por lipídios e proteínas, onde ocorrem as trocas nutritivas entre a célula e o meio, além de várias outras atividades metabólicas, entre elas a respiração. Essa membrana está envolvida pela parede celular, uma estrutura de proteção que confere à bactéria sua forma característica; com dez a vinte micra (1 mícron = 1 milésimo de milímetro) de espessura, compõe-se basicamente de glucopeptídeos (açúcares e proteínas). Em algumas espécies de bactérias, a parede celular se encontra rodeada por uma cápsula de natureza gelatinosa e de composição variável.

A maioria das bactérias possui um tamanho médio de dez micra, e se apresenta em quatro formas fundamentais: cocos ou pequenas esferas; bacilos ou bastonetes retos; vibriões ou bastonetes curvos; e espirilos ou filamentos em forma de hélice. Algumas espécies apresentam-se sob a forma de colônias de grupamentos: diplococos ou aos pares; estreptococos, formando longos filamentos; estafilococos, formando estruturas tridimensionais; e sarcinas, de morfologia cúbica. As bactérias se movem por meio de flagelos, estruturas alongadas de forma e número variáveis, distribuídas ao redor da célula.

Reprodução. Em condições adequadas, uma célula bacteriana se reproduz assexuadamente pelo processo da bipartição. Inicialmente, seu material celular dobra de volume, seguindo-se uma constrição na parte média da célula, pela invaginação ou dobra da membrana plasmática, ao longo da qual ocorre o crescimento de uma nova parede celular, até que duas novas células se formem.

Além desse mecanismo de reprodução, as bactérias podem se reproduzir sexuadamente, por meio de três processos diferentes, conhecidos como conjugação, transformação e transdução. No primeiro deles, há a transferência de material genético entre duas células. Na transformação, uma célula bacteriana, anteriormente destruída, libera para o meio parte de seu material genético, captada por outra célula. Na transdução, o material genético é transferido de uma célula para outra com o auxílio de um vírus bacteriófago.

O crescimento desses microrganismos apresenta várias fases sucessivas: latência, na qual o crescimento é nulo; crescimento exponencial; fase estacionária, na qual o número de indivíduos se mantém constante ao longo do tempo; e, por último, fase de declive, na qual há uma redução na população de microrganismos. Estas duas últimas são consequência da redução dos nutrientes presentes no meio e da produção de resíduos metabólicos tóxicos durante o processo de crescimento.

Ciclo vital das bactérias. O desenvolvimento bacteriano depende for- temente da temperatura. Existem certas espécies, denominadas psicrófilas, que exibem crescimento a temperaturas na faixa de 4 a 10o C, enquanto outras, conhecidas como bactérias mesófilas, apresentam um desenvolvimento acentuado em temperaturas entre 25 e 40o C. Outras, ainda, apre- sentam uma temperatura ótima de crescimento na faixa de 45 a 75o C, sendo, por esse motivo, denominadas termófilas. Além da temperatura, também o teor de oxigênio presente no meio afeta o desenvolvimento desses microrganismos. Assim, existem bactérias aeróbias (que só sobre- vivem na presença de oxigênio) e anaeróbias (para as quais a presença desse gás é letal) e facultativas (que não necessitam de oxigênio mas podem desenvolver-se na presença dele). Plantas. Também outras substâncias essenciais à nutrição das plantas só são assimiladas com o auxílio de bactérias, como é o caso do ferro e do enxofre.

Os grandes depósitos de salitre-do-chile resultam do trabalho de transformação dos dejetos de aves marinhas em nitratos de potássio e sódio efetuado por bactérias. O mesmo acontece com o salitre do Brasil, encontrado nos areais do Norte, proveniente da transformação de dejetos de mocós. O guano, fertilizante rico em fósforo e ainda hoje produzido em ilhas das costas do Peru, é também um resultado da ação de bactérias sobre os dejetos de aves guanaanis. Além disso, muitas jazidas de ferro e de enxofre resultaram da atividade de bactérias ferruginosas e sulfurosas que concentram esses elementos, obtidos em águas primitivas nas quais abundavam.

Presentes na atividade industrial, as bactérias são responsáveis pela obtenção de vários produtos, entre eles o ácido lático, o butírico, o álcool butílico, o propílico e a acetona, entre outros. Toda a indústria de laticínios, como manteiga, queijos, cremes e coalhadas, e o preparo do café, do chá, das bebidas fermentadas como vinhos, cervejas, vinagres etc., exploram o trabalho desses microrganismos.

Os despejos sanitários expostos à ação prolongada das bactérias e insuflados de ar durante algumas horas recuperam-se e podem voltar ao curso dos rios sem prejuízo para sua fauna. A vasa que se forma nas estações de tratamento como sedimento é rica em substância orgânica. Tanto pode ser utilizada como fertilizante, como aproveitada para produzir gás, em geral, é utilizado para fornecer a eletricidade necessária ao funcionamento dessas estações.

A água contaminada com componentes do ácido fênico, rejeitada pelas refinarias de petróleo, é purificada por certo tipo de bactérias; e até as águas com escórias de certas indústrias, como cianetos, que provocariam a total destruição dos peixes e demais animais dos cursos de água, são hoje neutralizadas pela ação de bactérias especializadas em transformar esse veneno em substâncias inócuas.

As bactérias formam mais da metade do volume do conteúdo intestinal. Existe aí um equilíbrio natural, entre as espécies nocivas e as benéficas, que se traduz em saúde para o organismo. Um dos efeitos secundários dos antibióticos empregados para combater as bactérias patogênicas (aquelas causadoras de enfermidades) é que eles matam também as espécies úteis, podendo acarretar distúrbios em consequência do rompimento desse equilíbrio.

Muitas bactérias do gênero Streptomyces produzem antibióticos, como a estreptomicina (S. griseus), aureomicina (S. aureofaciens), terramicina (S. rimosus), cloranfenicol (S. venezuelae), eritromicina (S. erythreus), neomicina (S. fradiae), farmicetina (S. lavendulae) etc.

Germes e doenças. Os organismos unicelulares que, introduzidos no corpo humano ou de animais, são capazes de provocar doenças, em de- terminadas condições, tomam o nome genérico de germes ou micróbios. Alguns germes, chamados não-patogênicos, podem ser encontrados no organismo.

Para demonstrar que uma enfermidade é causada por um determinado germe, devem ser satisfeitas quatro condições, conhecidas como "postula dos de Koch": (1) o germe deve ser encontrado no organismo do hospedeiro, homem ou animal; (2) o micróbio deve ser extraído ou isolado do organismo e cultivado fora dele em meios artificiais de cultura; (3) o germe, cultivado em laboratório, deve causar a mesma doença quando inoculado em animal sadio; (4) deve-se encontrar o mesmo germe no animal inocula- do experimentalmente.

À medida que os cientistas iam estudando os micróbios, foram descobrindo que esses organismos podiam apresentar características que os assemelhavam aos animais, sendo, nesse caso, denominados protozoários; ou aos vegetais, englobando, nesse grupo, as bactérias e as riquétsias, fungos microscópicos; há ainda o grupo dos vírus filtráveis.

A tendência de certos germes patogênicos a se localizarem em determinadas células e órgãos, e neles produzirem lesões, nem sempre encontra explicação plausível. Do ponto de vista clínico, o médico pode ter uma ideia da identidade do germe quando leva em consideração a localização anatômica ou conjunto de sinais e sintomas referentes a certos órgãos.

Salvo pequenas diferenças, as infecções geralmente seguem um curso constante. Os microrganismos penetram no corpo através da pele, nasofaringe, pulmões, uretra, intestino ou outras portas de entrada. Uma vez instalados no hospedeiro, passam a multiplicar-se, gerando uma infecção geral ou primária. A partir daí, pode ocorrer invasão local de estruturas orgânicas vizinhas ou disseminação para órgãos mais distantes, através da corrente sanguínea e linfática, produzindo lesões secundárias. A infecção pode ser vencida pelo hospedeiro com recuperação completa ou matá-lo em qualquer fase evolutiva (localização, invasão ou disseminação).

O diagnóstico das doenças infecciosas se fundamenta em informações extraídas do interrogatório clínico, do exame físico e de exames complementares, principalmente de sangue e de urina. Em doenças causadas por bactérias, frequentemente se demonstra a presença do germe mediante exame microscópico de material colhido do hospedeiro. O diagnóstico pode ser confirmado, também, pelo estudo das características celulares no exame histológico de material colhido para biópsia. Finalmente, no diagnóstico das infecções, serve-se o médico também de exames sorológicos, por meio dos quais consegue identificar os anticorpos específicos para esse ou aquele germe.

Dados históricos. A bacteriologia se iniciou por volta de 1880, com os trabalhos básicos de Robert Koch e Louis Pasteur. A noção de que as bactérias eram a causa de doenças já fora mencionada anteriormente, em trabalhos que procuravam esclarecer a origem do contágio. O médico italiano Girolamo Fracastoro foi o primeiro a postular, em meados do século XVI, a ideia de que o contágio se devia a agentes vivos, admitindo que pudesse ser direto, indireto ou a distância.

Daí até o desenvolvimento formal da teoria microbiana por Pasteur, em 1878, vários cientistas realizaram experiências visando confirmar as hipóteses sugeridas por Fracastoro. Paralelamente ao trabalho realizado por Pasteur, estudos de Koch, com a adoção de procedimentos normalizados de pesquisa, foram responsáveis pelo surpreendente progresso da bacteriologia nos vinte anos seguintes.

A invenção do ultramicroscópio, em 1903, pelo físico alemão Heinrich Wilhelm Siedentopf e pelo químico austríaco Richard Zsigmond, facilitou consideravelmente as pesquisas. Surgiram, em 1919, a fotomicrografia e, em 1943, o microscópio eletrônico, que permitiu observar detalhadamente a célula microbiana. A descoberta do bacteriófago, em 1915, pelo canadense Félix Hubert d'Hérelle, marcou o início do capítulo extremamente importante em bacteriologia, relacionado a fenômenos de variação bacteriana, natureza dos vírus e mecanismo de sua manipulação.

Finalmente, o advento da quimioterapia bacteriana, em 1935, veio pavimentar o caminho para a era dos antibióticos, iniciada em 1940, com os trabalhos dos médicos ingleses Sir Howard Walter Florey e Ernst Boris Chain, que conduziram à produção em massa da penicilina, descoberta, em 1928, por Alexander Fleming.

Vírus

Com o aumento vertiginoso dos índices de crescimento demográfico em meados do século XX, as populações humanas foram sendo empurra- das para o interior de áreas até então ocupadas por florestas tropicais densas, habitat de incontáveis formas de vida. Esse avanço desenfreado, responsável pela expansão das fronteiras agrícolas e pela abertura de novas estradas e rotas comerciais, parece ter encontrado resistência apenas de alguns organismos invisíveis e extremamente agressivos: os vírus.

Vírus são agentes infecciosos de tamanho ultramicroscópico (com diâmetro entre 20 e 250 nanômetros), muito menores que as menores bactérias. Desprovidos de estrutura celular e dependentes de outras células vivas para se multiplicarem e propagarem, situam-se no limite que separa a matéria viva da inerte. Consistem de um núcleo de ácido nucleico (ADN, ácido desoxirribonucléico, ou ARN, ácido ribonucleico), envolto por uma cápsula externa proteica (capsídeo). Alguns apresentam ainda um envelope externo composto de lipídios e proteínas. O ácido nucleico contém o geno- ma do vírus -- sua coleção de genes --, enquanto o capsídeo o protege e pode apresentar moléculas que facilitam a invasão da célula hospedeira. Podem ser esféricos, em formato de bastão ou ter formas muito complexas, como "cabeças" poliédricas e "caudas" cilíndricas.

Em virtude de sua simplicidade, os vírus foram inicialmente considera- dos formas de vida primitivas. Esse conceito é tido como incorreto porque os vírus, destituídos das estruturas responsáveis pelo exercício das funções vitais, não sobreviveriam à ausência de células hospedeiras. É então mais provável que os vírus tenham evoluído a partir das células e não o contrário.

Ciclo de infecção. A injeção do ácido nucleico viral no interior de uma célula hospedeira é o início do ciclo de desenvolvimento do vírus. Vírus bacteriófagos (que invadem as células bacterianas) acoplam-se à superfície do microrganismo e perfuram sua rígida membrana celular, transmitindo assim o ácido nucleico viral para o hospedeiro. Os vírus de animais entram nas células hospedeiras mediante um processo chamado endocitose (invaginação da membrana da célula), enquanto os vírus de vegetais penetram em corrosões nas folhas das plantas. Uma vez no interior do hospedeiro, o genoma viral comanda a síntese de novos componentes virais -- ácidos nucleicos e proteínas. Esses componentes são então montados para formar novos vírus, que, ao romperem a membrana da célula, estão prontos para infectar novas células.

Há outro tipo de infecção viral, na qual o genoma viral forma uma associação estável com o cromossomo da célula hospedeira e junto com ele se replica, antes da divisão celular. Cada nova geração de células herda o genoma do vírus, que nesse caso não produz descendentes. Em algum momento, um fator qualquer pode induzir o genoma viral latente a comandar a replicação viral, com a subsequente ruptura da célula hospedeira e a liberação de novos vírus.

Resposta imunológica. O animal pode responder de numerosas for- mas a uma infecção viral. A febre é uma resposta: muitos vírus são inativa- dos a temperaturas ligeiramente acima da temperatura normal do hospedeiro. A secreção de interferon pelas células do animal infectado é outra resposta comum. O interferon inibe a multiplicação de vírus em células não- infectadas. Os seres humanos e outros vertebrados são capazes ainda de organizar um ataque imunológico contra vírus específicos, com anticorpos e células imunológicas especialmente produzidos para neutralizá-los.

Classificação. Os vírus classificam-se de acordo com várias características: o tipo de ácido nucleico que apresentam, seu tamanho, a forma do capsídeo ou a presença de um envelope lipoproteico em sua estrutura. A divisão taxionômica primária se faz em duas classes: vírus ADN e vírus ARN. Os vírus ADN dividem-se em seis famílias: poxvírus (que inclui o agente causador da varíola), adenovírus, herpesvírus, iridovírus, papovavírus (entre os quais os papilomavírus, que causam as verrugas simples, genitais e carcinomas de pele, de vulva e de pênis) e parvovírus.

Já os vírus ARN classificam-se nas famílias picornavírus (resfriados, poliomielite e hepatite A), calicivírus, togavírus (rubéola), flavivírus (dengue e febre amarela), coronavírus, ortomixovírus (gripe), paramixovírus (sarampo e caxumba), rabdovírus (raiva), arenavírus (febre hemorrágica), buniavírus, retrovírus (AIDS, leucemia e câncer de pele) e reovírus. Os arbovírus não chegam a constituir uma família. Agrupam-se nessa classificação todos os vírus transmitidos por artrópodes, principalmente mosquitos. Como exemplos de arbovírus citam-se os vírus transmissores da dengue, da febre amarela e da encefalite equina.

Prevenção e tratamento. O tratamento de uma infecção viral se restringe normalmente ao alívio dos sintomas: por exemplo, a ingestão de líquidos controla a desidratação, a aspirina alivia dores e diminui a febre. Há poucas drogas que podem ser usadas para combater diretamente o vírus, uma vez que esses organismos empregam a energia e o equipamento bioquímico das células vivas para realizarem sua própria replicação. Portanto, os medicamentos que inibem a replicação viral também inibem as funções das células hospedeiras. Existe um reduzido número de drogas antivirais, porém, que combatem infecções específicas.

O controle epidemiológico é a medida de maior êxito contra as doenças viróticas. Programas de imunização ativa em larga escala, por exemplo, podem quebrar a cadeia de transmissão de uma doença virótica e até erradicá-la, como ocorreu com a varíola. O controle de insetos e a higiene na manipulação dos alimentos são outras medidas que podem ajudar a eliminar alguns vírus do interior de populações específicas.

História. Os primeiros indícios da natureza biológica dos vírus vieram de estudos feitos pelo russo Dmitri Ivanovski, em 1892, e pelo holandês Martinus Beijerinck, em 1898. Beijerinck supôs inicialmente que o organismo estudado, causador de uma doença das plantas chamada mosaico, era um novo agente infeccioso, que ele chamou de contagium vivum fluidum, capaz de atravessar os filtros biológicos mais finos até então conhecidos. Em estudos independentes, Frederick Twort, em 1915, e Félix d'Hérelle, em 1917, comprovaram a existência dos vírus ao descobrirem agentes infecciosos capazes de produzir lesões em culturas de bactérias, os bacteriófagos.

Na década de 1940, a invenção do microscópio eletrônico permitiu observar os vírus pela primeira vez. Um significativo avanço no estudo desses organismos se fez em 1949, com a descoberta de uma técnica de cultura de células em superfícies de vidro, que abriu caminho para o diagnóstico de doenças causadas por vírus, por intermédio da identificação de sua ação sobre as células e dos anticorpos produzidos contra eles no sangue.

A nova técnica levou ao desenvolvimento de vacinas eficientes, como as empregadas contra a poliomielite, a varíola, a raiva e a febre amarela, avanços que pareciam prever a vitória definitiva do homem sobre as doenças viróticas. No entanto, o crescimento descontrolado da população mundial e a invasão concomitante e indiscriminada de nichos ecológicos antes intocados acabaram expondo o homem, nas últimas décadas do século XX, a vírus desconhecidos, por isso chamados emergentes, e extremamente agressivos. O surgimento de novas correntes migratórias e a intensificação do turismo internacional também ajudaram a disseminar doenças viróticas antes restritas a algumas populações isoladas.

O primeiro desses novos vírus a aparecer foi o HIV, causador da AIDS e provavelmente oriundo de macacos africanos. Isolado em 1983, o HIV infectou mais de 13 milhões de pessoas em 15 anos. Um dos vírus emergentes mais letais de que se tem notícia, contudo, é o ebola, que surgiu pela primeira vez, em 1967, em Marburg, na Alemanha, onde matou sete pessoas contaminadas por macacos importados da Uganda. Novas variedades do ebola, letais em noventa por cento dos casos, apareceram no Sudão e no Zaire, em 1976, e, novamente no Zaire, em 1995, causando mortíferas epidemias de febre hemorrágica.

Os hantavírus, transmitidos por roedores, são um exemplo de vírus que circulavam numa população isolada e se disseminaram pelo planeta na segunda metade do século XX. Antes da década de 1950, o Ocidente desconhecia os hantavírus, causadores de febre hemorrágica muito comuns na China e na Coreia, que se dispersaram principalmente no organismo de ratos transportados em porões de navios. A lista dos vírus emergentes inclui ainda o rift valley, um arbovírus causador de febre na região da grande fossa africana; e os arenavírus sabiá, junin, machupo, guanarito e lassa, causadores de febre hemorrágica, respectivamente, no Brasil, na Argentina, na Bolívia, na Venezuela e na África.

Fungo

Por muito tempo incluídos no reino vegetal, apesar de carecerem de clorofila e possuírem características muito diferentes das que apresentam as plantas, os fungos são hoje classificados em reino independente. Parasitos das plantas cultivadas, permitem a produção de antibióticos e favorecem muitos processos de fermentação. Alguns são apreciados também como alimento.

Fungo é o organismo vivo simples heterotrófico, isto é, incapaz de sintetizar matéria orgânica a partir de substâncias inorgânicas, cujo corpo é formado somente de um talo unicelular ou pluricelular. Semelhante às plantas em alguns aspectos, delas difere muito em outros. Já foram descri- tas cerca de cinquenta mil espécies, mas calcula-se que tal número possa chegar a 250.000. Os fungos encontram-se em habitats muito diversos: em meio aquático, no solo, no ar, sobre partículas em suspensão ou ainda à custa das plantas e também dos animais, que muitos deles parasitam. Aparecem onde quer que exista certo grau de umidade.

Caracteres gerais. Como as plantas, os fungos são organismos imóveis que vivem fixados a um substrato. Possuem um tecido indiferenciado, parecido com o talo de certos vegetais inferiores, e formam estruturas reprodutivas semelhantes aos esporos de outros seres vivos. No entanto, não têm clorofila, substância graças à qual os vegetais realizam a fotossíntese, e se alimentam de matéria inorgânica por meio da captação de energia luminosa.

Os fungos, portanto, como seres heterotróficos, isto é, que vivem às expensas da matéria elaborada por outros organismos, devem necessariamente crescer sobre restos orgânicos em decomposição ou como parasitos de outros seres vivos. A carência de clorofila, que confere às plantas sua característica cor verde, faz com que os fungos apresentem outras tonalidades, amiúde esbranquiçadas ou pardas, e também é a razão por que não precisam de luz para desenvolver-se. Além disso, não possuem em suas células a típica parede de celulose dos vegetais e suas membranas frequentemente contêm quitina, substância de que se compõe a cutícula de alguns animais invertebrados, como os insetos. Essas características levaram os biólogos a considerarem os fungos como um reino à parte. A ciência que estuda esses seres denomina-se micologia.

As células dos fungos pluricelulares se dispõem em filamentos chama- dos hifas, as quais se agrupam e constituem o tecido fundamental ou micélio. A reprodução pode ser assexuada, em geral por meio de estruturas microscópicas denominadas esporos, ou sexuada. Esta última se processa em certos fungos por fusão de células procedentes de duas hifas distintas. Alguns grupos formam duas classes de esporos: uns dotados de flagelo, prolongamento filiforme que lhes permite deslocar-se na água, conhecidos como zoósporos; e outros sem flagelo, os aplanósporos, carentes de mobilidade.

Os diversos grupos de fungos desenvolvem também diferentes tipos de órgãos produtores de esporos. Em alguns mofos, esses órgãos denominam-se esporângios e se apresentam como corpos arredondados situados na extremidade de um filamento. Os cogumelos mais comuns produzem um  órgão frutífero composto de um pé e um chapéu, que constituem a parte visível do fungo. Na parte inferior do chapéu há uma série de lamelas em que se originam os basídios, estruturas que emitem os esporos. Os levedos e certos mofos formam os ascos, pequenos órgãos que costumam desenvolver oito esporos.

Ordenação sistemática. Entre as diversas classes de fungos encontram-se os mixomicetes, que produzem corpos frutíferos dos quais surgem esporos muito resistentes, que podem permanecer em estado de latência durante muitos anos, até que as condições ambientais se tornem favoráveis a seu desenvolvimento. A classe dos ficomicetes, fungos inferiores e antigos, agrupa os arquimicetes, muito primitivos; os oomicetes, que parasitam vegetais; e os zigomicetes, que incluem alguns dos mofos mais comuns, como os pertencentes aos gêneros Mucor e Rhizopus -- os chamados mofos pretos -- frequentes no pão, nas frutas e em outros alimentos em mau estado de conservação.

A classe dos ascomicetes, caracterizados por possuírem ascos dos quais saem os esporos, incluem, entre outros, os levedos do gênero Saccharomyces, importantes porque realizam diferentes processos de fermentação, entre os quais o da farinha, que assim se transforma em pão, e o da cerveja. A esse grupo pertencem também os fungos do gênero Penicillium, dos quais se obtém a penicilina, antibiótico descoberto pelo médico inglês Alexander Fleming em 1928, e as trufas, do gênero Tuber, muito aprecia- das como alimento, por seu delicado sabor.

Os cogumelos são fungos pertencentes à classe dos basidiomiceto, alguns dos quais comestíveis, como o Agaricus campestris, conhecido em culinária como champignon; e o Lactarius deliciosus. Outros são venenosos, como os mata-moscas (Amanita muscaria), e até mortais, como o A. phalloydes; e outros ainda são parasitos, como o carvão do milho (Ustilago maydis).

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